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  • Foto do escritorDiogo Oliveira

Quanto custa realmente tirar uma fotografia de vida selvagem? Uma análise detalhada

A fotografia de vida selvagem é uma paixão que encanta e inspira fotógrafos em todo o mundo. Capturar a beleza e a essência dos animais no seu habitat natural é uma arte que requer não apenas talento e habilidade, mas também um investimento significativo de tempo e recursos. Neste post, vamos explorar em detalhe todos os custos envolvidos ao tirar uma fotografia de vida selvagem, desde o tempo despendido no campo até os gastos com equipamentos e tecnologia.



HORAS NO CAMPO

O primeiro aspeto a considerar ao calcular o custo de uma fotografia de vida selvagem é o tempo que passamos no campo. Os fotógrafos de vida selvagem passam horas a fio no campo, por vezes necessitam de dias ou até semanas para conseguir a fotografia desejada, esperando por aquele momento perfeito. Passar tanto tempo no campo não só requer dedicação, mas também inclui algumas despesas extras, como alojamento, alimentação e transporte. A não ser que esteja a fotografar perto de casa, onde a viagem de carro nunca é superior a uma hora, qualquer outro local implica ficar a dormir na região. Suponhamos que passo uma semana num parque ou reserva natural. Por cada dia lá, acabo por dedicar cerca de 10 horas a fotografar vida selvagem ou à procura de animais. Isto totaliza cerca de 70 horas de trabalho de campo nessa semana. Noutros casos posso passar uma semana a ir ao mesmo local perto de casa, "perdendo" apenas a manhã a fotografar ou a filmar. Fazendo uma média ao ano, dá cerca de 25 horas semanais. O que equivale a 1.300 horas anuais no campo a ver animais.


A todas estas horas no campo há que juntar os quilómetros percorridos. Chego a fazer mais de 20.000 quilómetros todos os anos. Sendo que tenho um jipe que gasta um bocadinho mais, mas que me permite andar em caminhos de terra batida. Fazendo as contas ao preço atual do combustível:

- Combustível: 3.424 €

- Portagens: 500 €


EQUIPAMENTO FOTOGRÁFICO

O equipamento fotográfico é parte essencial de um fotógrafo de vida selvagem. E os avanços atuais significam que para estarmos no topo, também necessitamos do melhor equipamento. Câmaras de alta qualidade, objetivas especializadas e diferentes acessórios como tripés e camuflagens são fundamentais para conseguir fotografias nítidas e detalhadas das espécies que queremos fotografar. No entanto, todo este equipamento não é barato e requer um investimento significativo. Nestas minhas contas estou a deixar de fora todo o equipamento que adquiri, e que entretanto ficou obsoleto, avariou, foi vendido ou está na gaveta à espera de ser vendido (ou utilizado).

Para deixar tudo mais claro, vou colocar os valores que gastei nos diferentes equipamentos que utilizo para fotografar, deixando de parte o equipamento dedicado exclusivamente para filmar:

- Câmara Sony A7R IV a: 3.695 €

- Câmara Sony A7 IV: 2.490 €

- Objetiva SONY FE 200-600mm f/5.6-6.3 G OSS: 1.899 €

- Objetiva SONY FE 90mm f/2.8 Macro G OSS: 1.039 €

- Objetiva SONY FE PZ 16-35mm F4 G: 1.399 €

- Flash SONY HVL-F60RM2: 645 €

- Tripé MANFROTTO Tripé 055XPRO3: 259 €

- Cabeça Tripé Gimbal: 170 €

- Mochila LOWEPRO Whistler BP 450 AW II: 425 €

- Mochila LOWEPRO ProTactic BP 450 AW II: 259 €

Totalizando um investimento inicial de 12.280 €.





DESGASTE DO EQUIPAMENTO

Além do custo inicial do equipamento, é importante considerar o desgaste ao longo do tempo. Em especial por estarmos constantemente a fotografar em ambientes selvagens é mais desgastante para o equipamento, isto porque o sujeitamos a condições climáticas extremas, como poeira, humidade, chuva, areia, lama e impactos físicos.

Supondo que o equipamento fotográfico tem uma vida útil de 5 anos e requer uma manutenção anual de aproximadamente 10% do valor inicial do equipamento, o custo anual de manutenção seria de 1.200 €.



COMPUTADOR E SOFTWARE

Não basta apenas fotografar, é ainda necessário proceder ao seu processamento. Usualmente significa que necessitamos de um computador com uma elevada capacidade de processamento e uma boa placa gráfica. Isto pode exigir um investimento maior que o normal, procurando adquirir um computador rápido e com muita memória RAM, além de ser necessário adquirir software de edição profissional.

- Computador de alta performance: a partir de 3.000 €

- Software de edição de fotos (Adobe Cloud Serviço Anual): 852 €

Totalizando um investimento inicial de 3.850 €. Sendo que o software é pago anualmente.



HORAS DE EDIÇÃO

A quantidade de tempo que passo a editar varia consoante o tipo de animais que fui fotografar. Mas é uma parte essencial do processo criativo e pode consumir uma quantidade significativa de tempo. Desde a seleção das melhores fotografias até ao ajuste de cores e o recorte, a edição pode levar várias horas por cada fotografia que tiro. Suponhamos que cada 1000 fotografias levam em média 3 horas a ser editadas, isto contempla o período de seleção e edição. Se eu tirar 10.000 fotografias numa semana, significa que estarei cerca de 30 horas agarrado ao computador na semana seguinte. Isto equivale quase a 1 semana de trabalho. Na média anual passo cerca de 780 horas a editar as fotografias.



LIMPEZA DO EQUIPAMENTO

A parte que muitos fotógrafos falham. Limpar o equipamento! Após cada sessão de fotografia, o equipamento precisa ser limpo e mantido adequadamente para garantir que na sessão seguinte tudo está a funcionar como deve de ser e que garantimos a sua longevidade. Isto implica limpar toda a poeira das objetivas, limpar bem o corpo da câmara com um pano, verificar se não existem potenciais danos em nenhum lado, limpar ou lavar as pernas do tripé, verificar se a mochila continua em bom estado e depois de transferir as fotografias não esquecer de formatar os cartões. Supondo que cada sessão de limpeza leve em média 30 minutos e que seja realizada logo após cada ida ao campo, diria que a média por semana seja de 2 horas de limpezas.



ARMAZENAMENTO DE IMAGENS

As fotografias são o bem mais precioso de qualquer fotógrafo e por isso necessitam de ser armazenadas de forma segura e acessível para futuras referências e projetos. É, por isso, normal que tenhamos imensos discos rígidos externos espalhados pelas gavetas, assim como a subscrição de serviços de armazenamento em nuvem e plataformas online dedicadas.

Para tornar tudo mais seguro, mantenho sempre uma cópia de segurança de todas as fotografias e vídeos, usando por isso dois discos rígidos externos, além de possuir um serviço de armazenamento em nuvem para backup adicional. Com as câmaras atuais, entre fotografias e vídeos, gasto cerca de 3 discos de 4Tb por ano. A vantagem é que os discos tem vindo a ficar cada vez mais baratos. Para além destes discos externos, quando estou a editar as fotografias ou vídeos, faço-o num disco SSD externo. Neste caso, utilizo 3 discos. Um para os vídeos, um para projetos mais demorados, e outro para fotografias a editar no imediato. Com exceção dos SSD que não necessito de novos a cada ano, os restantes estão sempre a fazer falta.

- Disco Externo 2.5" Toshiba Canvio Basics 4TB USB 3.2 Preto: 120 €

- SSD Externo Samsung Portable T7 1TB USB 3.2 Gen2 Preto: 120 €

Totalizando um investimento inicial de 720 €. Tendo ainda uma renovação anual de 360 €.



TEMPO NAS REDES SOCIAIS

Por fim, não podemos ignorar o tempo gasto nas redes sociais para partilhar as nossas fotografias, as nossas aventuras, interagir com seguidores e promover o portfólio. Criar o nosso próprio website, e fazer a sua gestão pode ser bastante desafiante. Obrigando o fotógrafo a aprender novas ferramentas. Fazer a gestão dos diferentes perfis em plataformas como Instagram, Facebook e YouTube pode exigir várias horas por semana. Embora este valor varie de fotógrafo para fotógrafo, e ainda de semana para semana.

Supondo que eu passo cerca de 8 horas por semana dedicado exclusivamente às redes sociais e à criação de conteúdos para o meu website e vídeos para o YouTube, no final do ano foram cerca de 416 horas que foram gastas a tratar de assuntos relacionados com as redes sociais. Isto tudo para vos poder mostrar as minhas fotografias.

- Website A: 300 € por dois anos

- Website B: 150 € por dois anos

- Smugmug: 250 € por ano

Totalizando um investimento inicial de 700 €.



QUANTIFICANDO OS CUSTOS TOTAIS

Finalizado todos os aspetos envolvido no processo de tirar fotografias de vida selvagem, vamos quantificar tudo isto:

- Horas no campo: 25 horas semanais (fins-de-semana incluídos) | 1.300 horas anuais

- Deslocações: 3.924 €

- Equipamento fotográfico: 12.280 €

- Desgaste do equipamento: 1.200 € por ano

- Computador e software: 3.850 €

- Horas de edição: 780 horas

- Limpeza do equipamento: 104 horas por ano

- Armazenamento de imagens: 720 € inicial e 360€ por ano

- Websites: 700€ por ano

- Tempo nas redes sociais: 416 horas por ano

Somando todos esses custos, podemos calcular o custo total de tirar uma fotografia de vida selvagem num ano:

Custo Total = 1.300h x ?€/h + 3.924 € + 12.280 € + 1.200 € + 3.850 € + 780h x ?€/h + 104h x ?€/h + 720€ + 700 € + 416 x ?€/h = 22.674 € + ?!?!

(Horas no campo x Valor por hora) + Deslocações + Equipamento fotográfico + Desgaste do equipamento + Computador e software + (Horas de edição x Valor por hora) + (Horas de limpeza x Valor por hora) + Armazenamento de imagens + (Horas nas redes sociais x Valor por hora)



VALOR POR ANO

Para determinar o valor por hora, podemos considerar o custo total anual do fotógrafo, incluindo despesas gerais como seguros, alojamento, roupa adequada, equipamento de proteção e outros gastos relacionados à profissão de fotógrafo de vida selvagem. Vamos supor que o custo total anual seja de 30.000 euros e que trabalhamos 40 horas por semana, totalizando 2080 horas por ano.

Valor por Hora = Custo Total Anual / Horas de Trabalho Anuais

Valor por Hora = 30.000 / 2080 horas

Valor por Hora = 14,42 €

Agora podemos calcular o custo total de tirar uma fotografia de vida selvagem em um ano:

Custo Total = 1.300h x 14,42 €/h + 3.924 € + 12.280 € + 1.200 € + 3.850 € + 780h x 14,42 €/h + 104h x 14,42 €/h + 720€ + 700€ + 416h x 14,42 €/h

Custo Total ≈ 18.746 € + 3.924 € + 12.280 € + 1.200 € + 3.850 € + 11.247,60 € + 1.499,68 € + 720 € + 700€ + 5.998,72 €

Custo Total ≈ 60.156 €


Portanto, o custo total de tirar uma fotografia de vida selvagem durante um ano, incluindo horas no campo, equipamento, desgaste, computador, horas de edição, limpeza do equipamento, armazenamento de imagens e tempo nas redes sociais, é aproximadamente 78.912 €. Este valor é para quem começa, ou seja, o ano zero. Para o segundo ano, podemos retirar alguns valores:

Custo Total = 1.300h x 9,62 €/h + 3.924 € + 1.200 € + 852 € + 780h x 9,62 €/h + 104h x 9,62 €/h + 360€ + 700€ + 416h x 9,62 €/h

Custo Total ≈ 12.506 € + 3.924 € + 1.200 € + 852 € + 7.503,60 € + 1.000,48 € + 360 € + 700€ + 4.001,92 €

Custo Total ≈ 32.048 €


VALOR POR HORA

Embora seja quase impossível determinar qual o valor de uma única fotografia, vou tentar chegar a um valor com base nestes dados todos. Atenção, que estes valores variam de ano para ano, de fotógrafo para fotógrafo. E que tudo isto serve apenas para mostrar um bocado dos bastidores da fotografia de vida selvagem, e todos os custos associados. Para que quando pensem em comprar algum produto de algum fotógrafo de vida selvagem, compreendam o investimento por detrás desse produto. Primeiro há que quantificar quantas fotografias tiro por ano, e quantas são aproveitadas. Estes valores vão ser com base no último ano, em que tirei 100.000 fotografias, sabendo que tive duas viagens aos estrangeiro. E dessas apenas 20.000 foram aproveitadas. Muitas foram pequenos registos, ou testes para fotografar determinado animal. Ou simplesmente estavam demasiado más, cometi algum erro, ficaram tremidas, desfocadas, entre outros.

Valor por Fotografia para o 1º ano: 3,0078 €

Valor por Fotografia para o 2º ano: 1,6024 €

Ou seja, sempre que tiro 1 fotografia que vou aproveitar gastei 3,0078 € no primeiro ano e 1,6024 € no segundo ano. Se num dia aproveitar cerca de 50 fotografias, são praticamente 100€ que "gastei" para as conseguir.


CONCLUSÃO

Embora tirar fotografias de vida selvagem possa parecer uma atividade simples à primeira vista, a análise detalhada dos custos envolvidos revela a complexidade e o investimento significativo que é necessário para sermos bem sucedidos. Desde todo o tempo que passamos no campo até ao equipamento especializado, ao trabalho que é necessário fazer de pós-produção, todos estes aspetos contribuem para o valor final de uma fotografia.

É importante reconhecer e valorizar o trabalho dos fotógrafos de vida selvagem, não apenas pelo resultado final, mas também pelo esforço e dedicação que eles investem em cada fotografia. Ao compreender os custos envolvidos, a ideia é que todos possamos apreciar ainda mais o trabalho de todos os fotógrafos de vida selvagem e apoiar o meu e o trabalho dos restantes colegas, garantindo assim a continuidade desta arte da fotografia de vida selvagem para as gerações futuras.



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